Fadado ao Fracasso!

Estudávamos, eu e meus irmãos, em um escolha pública estadual e lá era o mundo que eu conhecia. Na minha infância eu até que procurava, mas não conseguia encontrar nada que me empolgasse na minha vidinha simples. Era como se eu não me encaixasse nesse mundo.

Minha mente girava a milhão e eu, perdido em meus pensamentos, comecei a construir uma crença de que eu nunca seria nada! Estava fadado ao fracasso (e a envergonhar minha família consequentemente).

Meu irmão mais velho e a sua turma, da qual eu não fazia parte, começaram a praticar um novo esporte. Na época o voleibol começava a se propagar pelo Brasil. Um de seus amigos, chamado Noboro (ou simplesmente Boro como era conhecido) me convidou para jogar com eles. Estranhei, óbvio. Eu jogar com vocês? Sério? Vocês me aceitariam? Minhas crenças de inadequação gritavam alto!

Aceitar aquele convite mudou drasticamente a minha vida. A partir daquele convite consegui uma bolsa de estudos para uma escola particular com uma realidade anos luz de distância da minha até então conhecida realidade. Ao assistir a primeira aula duas coisas ficaram claras para mim:

  1. Existia giz colorido para professor! Na escola pública eu só tinha visto giz branco. Imagine o susto!
  2. Eu, sim eu, poderia prestar vestibular, fazer faculdade e construir outra vida! Eu nunca ouvira falar dessa possibilidade!

Minha vida nunca mais foi a mesma!

Foi Destino ou Predestinação?

Na linha do tempo da minha vida aquele momento marca uma mudança drástica. Um fato memorável com certeza da minha jornada. Mas seria meu destino?

As palavras destino e predestino muitas vezes são utilizadas como sinônimos na cultura popular, mas elas possuem significados bem diferentes.

A palavra destino refere-se para onde vamos depois que escolhemos um determinado caminho. Já a palavra predestinação é para onde iremos ir, independente de nossa vontade.

Eu terei como destino a cidade de Curitiba quando decidir por lá passar para chegar a São Paulo de carro partindo de Florianópolis, por escolha própria. Por outro lado, eu e você estamos predestinados a morrer um dia, independente de nossas vontades.

Cada pensamento que você tem é uma semente lançada no campo. O campo não escolhe o que vai brotar , o poder de escolha é seu. 

No meu próprio exemplo, que abriu esse artigo, eu não estava predestinado a ser um jogador de vôlei e a fazer faculdade de Engenharia Elétrica. Sei bem disso porque, ao receber a bolsa de estudo para a escola particular, eu não queria aceitar. Não estava em meus planos estudar “naquela escola” tão diferente da minha realidade, eu queria jogar em outro lugar!

Mas minha mãe interveio e “gentilmente” me convenceu que aceitar aquela bolsa que me levaria a um melhor destino. E ela fez isso me mostrando qual seria o meu destino caso eu não optasse pela chance de cursar uma faculdade – realidade essa que ela e meu pai conheciam muito bem!

Determinando o Determinismo!

Mas seria então o determinismo definindo que eu deveria mudar de vida? Seria mera casualidade?

Determinismo é um conceito filosófico que diz serem todos os fatos baseados em causas, ou seja, todo o acontecimento é regido pela determinação, seja de caráter natural ou sobrenatural. O termo determinismo surgiu a partir do verbo “determinar”, que vem do latim determinare que, literalmente, significa “não-terminar” ou “não-limitar”.

Resumidamente, o determinismo é uma corrente de pensamento que defende a ideia de que as decisões e escolhas humanas não acontecem de acordo com um livre-arbítrio, mas sim através de relações de casualidade. Se já está determinado, não há nada que possamos fazer!

Tudo no universo, de acordo com o determinismo, está limitado a leis imutáveis, ou seja, todos os fatos e ações humanas são predeterminadas pela natureza, sendo a “liberdade de escolha” uma mera ilusão da vida.

Seria isso que teria acontecido comigo? Bem meus irmãos seguiram caminhos bem diferentes…

O Determinismo predestinando o meu Destino?!

Nossa, agora deu um nó! Tirando o trocadilho seria mais ou menos assim: na vertente filosófica do Determinismo acredita-se que o seu “Destino está predestinado“, ou seja, nada há que possamos fazer que irá mudar isso! Meio drástico, não? Bate um desânimo, uma preguiça! Então melhor sentar e esperar…

“Destino é algo ligado ao futuro mas que foi predeterminado no passado.”

Ainda bem que podemos pedir “socorro” ao Livre Arbítrio, que conceitualmente se opõe ao determinismo, defendendo que os atos de um indivíduo são inerentes à sua vontade, e ocorrem com a força de outras causas, internas ou externas, mas a partir da sua livre escolha.

Livre arbítrio seria então o poder que cada indivíduo tem de escolher suas ações, que caminho quer seguir, estando mais ligado a vontade. Para algumas pessoas o livre arbítrio significa ter liberdade, mas são conceitos diferentes. Enquanto o livre arbítrio é a possibilidade de escolher entre uma coisa e outra, a liberdade seria o bom uso desse poder de escolha.

Agora chegou a vez do contra ponto: mas não estaria o livre arbítrio predestinando, por sua vez, que tudo é possível e que todos os destinos são acessíveis a todos?

Na prática não é bem assim…

Será que existe algo mais?

Observando as duas vertentes opostas talvez fique aquela sensação de que as duas estejam exagerando e no fim acabam sendo faces da mesma moeda. Então vamos mergulhar um pouco mais:

Segundo Stephen Covey, em seu livro Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, temos três tipos de determinismos:

  1. Genético: são meus traços herdados geneticamente que determinam como fui, sou e serei. A culpa de eu ser assim é de meus antepassados.
  2. Psíquico: aquilo que aprendi com meus pais e meus educadores é que determina o que fui, sou e serei. Nada há que possa fazer para mudar isso!
  3. Ambiental: sou o que sou em virtude do meu chefe, do meu cônjuge, do país que nasci, da economia, etc. Sou fruto do meio em que vivo e contra isso também há pouco que eu possa fazer. Não adianta lutar contra.

Independente do tipo de determinismo o certo, segundo o autor, é que nós entregamos nosso destino a outros e acreditamos realmente que não há nada a fazer para mudarmos nosso futuro. Sendo assim passamos a viver como expectadores da nossa própria vida ao invés de sermos os escritores! Voltamos ao “então melhor se sentar e esperar…”.

O paradigma social atualmente aceito nos diz que nosso condicionamento e nossa condição determinam amplamente o que somos. Com que precisão e funcionalidade estes mapas deterministas descrevem o território?

Com que nitidez estes espelhos refletem a verdadeira natureza do homem? Não seriam eles profecias feitas com cartas marcadas? Seriam eles baseados em princípios que consideramos válidos em nosso íntimo?

No meu próprio exemplo com certeza o mapa determinista, tal qual apresentado acima, não descreveu minha jornada. Se eu tivesse ouvido minha realidade jamais mudaria minha vida!

Vencer a preguiça é a primeira coisa que o homem deve procurar, se quiser ser o dono do seu destino.

Não seria Carma?

Já James Hillman, em seu livro Código do Ser, resgata O Mito de Er, de Platão, em sua obra mais conhecida, A República, aonde ele, Hillman, resume:

“Cada pessoa entra nesse mundo tendo sido chamada. Escolhemos o corpo, os pais, o lugar e as circunstâncias que servirão à alma e que, segundo o mito, pertencem à sua necessidade.”

Essas ideias formam a “teoria do fruto do carvalho”, que sustenta que cada pessoa tem uma singularidade que pede para ser vivida e que já está presente antes de poder ser vivida.

O mito ainda sugere as seguintes sugestões práticas:

  • reconhecer o chamado como o fato primordial da existência humana;
  • alinhar a vida com esse chamado;
  • ter o bom senso de perceber que acidentes pertencem ao padrão da imagem, e são necessários e ajudam a realizar essa image.

Se não olharmos cuidadosamente seremos levados a acreditar que os dois autores estão defendendo questões opostas. Novamente a polaridade entre determinismo e livre-arbítrio. Mas será mesmo?

Destino e Fatalismo

“Mas se a alma escolhe seu daimon e sua vida, como ainda nos resta algum poder de decisão?. Onde está nossa liberdade? Tudo o que vivemos e que pensamos ser nosso, todas as decisões, tudo isso pode já estar predeterminado? Vivemos iludidos que temos alguma escolha, mas nossa vida já estava traçada no fruto do carvalho e estamos apenas realizando um plano secreto?”, pergunta Plotino (o maior dos neoplatônicos).

Para evitar essa conclusão equivocada, James Hillman esclarece, no fechamento de seu livro, o que eu julgo ser um meio termo maravilhoso para equilibrarmos as faces opostas da mesma moeda: determinismo e livre-arbítrio – ambas estão certas em certo ponto e sim, co-existem.

O destino é como uma viagem: você a planeja, mas pode mudar a rota e os acontecimentos a partir do momento que começa a coloca-la em ação.

Me acompanhe: se eu nasci para ser um Carvalho nada irá me adiantar tentar ser um Abacateiro. Eu não tenho escolha, estou predestinado a ser um Carvalho. Ponto para o determinismo.

Porém isso fala da necessidade da minha alma de manifestar minha vocação, meu propósito nessa vida – escolhido por mim mesmo. Mas a maneira com que essa necessidade irá influir nas minhas escolhas é totalmente irracional: existem literalmente infinitas possibilidades de eu manifestar-me como um Carvalho! Ponto para o livre-arbítrio!

Em outras palavras, todos temos nosso curador interno a nos lembrar da necessidade de ser quem somos e realizar o que viemos realizar, porém a maneira que iremos manifestar isso depende de nós mesmos, e é única. Vale lembrar que ao nascer, uma parte de nós esquece o que veio fazer aqui, mas nosso curador interno se lembra.

“Inexorável”…

Na hora de decidirmos, tudo está em aberto; temos infinitas possibilidades a nossa disposição. Depois que decidimos, seja qual for a nossa escolha, ela é, e sempre será, aquela que era necessária para nosso caminhar, para o nosso crescimento e para que possamos cumprir nossa jornada de Alma.

O fascinante nesse desfecho proposto por Hillman ao resgatar Platão é como essa dança entre Determinismo e Livre-Arbítrio compõem algo maior que as duas visões separadamente. Em resumo, não há uma visão anulando a outra, tal qual seríamos levados a pensar por um paradigma cartesiano. Em um paradigma transpessoal ambos se unem e somam sinergicamente ao invés de dividir!

A necessidade que nossa Alma tem de se desenvolver garante o risco de estar tudo em aberto a nossa disposição. E a cada decisão, sim arrisca-se tudo, embora o que foi decidido imediatamente se torne o que era exatamente o necessário! Fascinante não é?

 

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Um abraço e até o próximo artigo!